O que é um collar, como funciona e como utilizá-lo?

Nível: Intermediário

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O que é um collar?

Um collar é uma estratégia que combina três pernas: uma posição comprada em ações, uma put comprada (proteção) e uma call vendida (financiamento). Na prática, é a junção de duas estratégias que você talvez já conheça: a venda coberta e a put de proteção.

A ideia central é simples: a put comprada funciona como um seguro contra quedas fortes na ação, mas esse seguro tem um custo — o prêmio da put. Para reduzir (ou até zerar) esse custo, o investidor vende uma call acima do preço atual da ação. O prêmio recebido pela call vendida financia, total ou parcialmente, a compra da put.

O resultado é uma posição “travada” dentro de um intervalo: abaixo do strike da put, as perdas param de crescer; acima do strike da call, os ganhos param de crescer. O investidor abre mão de parte do potencial de alta em troca de proteção contra o potencial de queda — daí o nome “collar” (colar ou coleira, em inglês), pois a posição fica presa entre dois limites.

Saiba mais sobre as opções.

Outros nomes

Colar

Fence (cerca)

Hedge de custo zero (quando o prêmio recebido pela call vendida anula exatamente o prêmio pago pela put comprada)

Pressuposto direcional

Levemente otimista, com prioridade em proteção. O investidor quer continuar posicionado na ação — e se beneficiar de uma alta moderada —, mas está mais preocupado em limitar perdas do que em maximizar ganhos.

Ambiente de volatilidade implícita ideal

Indiferente/neutro. Como o collar compra prêmio (a put) e vende prêmio (a call) ao mesmo tempo, o efeito da volatilidade implícita tende a se compensar entre as duas pernas. Isso torna a estratégia menos sensível ao nível de volatilidade do que estratégias que apenas compram ou apenas vendem opções.

Gráfico de lucro/perda

Gráfico de lucro e prejuízo de um collar

O gráfico mostra o formato característico do collar: uma linha achatada à esquerda (a put limita o prejuízo), uma rampa no meio (a posição acompanha a ação) e uma linha achatada à direita (a call limita o lucro).

Setup

  1. Possua (ou compre) 100 ações do ativo.
  2. Compre 1 put com strike abaixo do preço atual da ação (OTM). Essa é a sua proteção.
  3. Venda 1 call com strike acima do preço atual da ação (OTM). Essa perna financia a proteção.

As duas opções normalmente têm o mesmo vencimento. Quanto mais próximos os strikes estiverem do preço atual da ação, mais apertada fica a “trava” — menos risco, mas também menos potencial de ganho.

Exemplo prático

Imagine que um investidor possui 100 ações da ABC, negociadas a R$ 100 cada. Ele continua acreditando na empresa no longo prazo, mas teme uma queda forte nos próximos meses e quer se proteger sem gastar caixa com isso.

Ele então monta o seguinte collar:

  • Mantém as 100 ações da ABC a R$ 100/ação.
  • Compra 1 put de strike R$ 95, pagando R$ 2,50 por ação (R$ 250 no total).
  • Vende 1 call de strike R$ 105, recebendo R$ 2,50 por ação (R$ 250 no total).

O prêmio recebido pela call (R$ 2,50) paga exatamente o prêmio da put (R$ 2,50). O custo líquido da estrutura é zero — este é o chamado collar de custo zero.

Vejamos três cenários hipotéticos no vencimento:

Cenário nº 1: ABC cai para R$ 88

Sem proteção, o investidor perderia R$ 12,00 por ação. Com o collar, a put de strike R$ 95 entra em ação: ela dá o direito de vender as ações a R$ 95, não importa o quanto a ação tenha caído.

  • Perda na ação limitada pela put: R$ 100 − R$ 95 = (R$ 5,00) por ação
  • Custo líquido dos prêmios: R$ 0,00
  • Resultado total: prejuízo de R$ 5,00 por ação (R$ 500)

A call vendida expira sem valor. Repare que o prejuízo seria o mesmo se a ação caísse para R$ 80, R$ 60 ou qualquer valor abaixo de R$ 95 — a put trava a perda máxima.

Cenário nº 2: ABC fica em R$ 100

A ação terminou exatamente onde começou. A put (strike R$ 95) e a call (strike R$ 105) expiram sem valor.

  • Resultado na ação: R$ 0,00
  • Custo líquido dos prêmios: R$ 0,00
  • Resultado total: R$ 0,00 — este é o ponto de equilíbrio

O investidor não ganhou nem perdeu, mas passou o período inteiro protegido contra uma queda forte, sem pagar nada por isso.

Cenário nº 3: ABC sobe para R$ 112

A ação subiu R$ 12,00, mas a call vendida de strike R$ 105 é exercida: o investidor é obrigado a vender suas ações a R$ 105.

  • Ganho na ação limitado pela call: R$ 105 − R$ 100 = R$ 5,00 por ação
  • Custo líquido dos prêmios: R$ 0,00
  • Resultado total: lucro de R$ 5,00 por ação (R$ 500)

O investidor deixou de capturar os R$ 7,00 acima do strike da call — esse é o preço da proteção. Assim como no cenário de queda, o resultado seria o mesmo com a ação a R$ 110, R$ 120 ou qualquer valor acima de R$ 105.

Lucro máximo, prejuízo máximo e ponto de equilíbrio

Lucro máximo

Strike da call − preço de compra da ação − custo líquido dos prêmios

No exemplo: R$ 105 − R$ 100 − R$ 0 = R$ 5,00 por ação. Ocorre quando a ação termina no strike da call ou acima dele.

Prejuízo máximo

Preço de compra da ação − strike da put + custo líquido dos prêmios

No exemplo: R$ 100 − R$ 95 + R$ 0 = R$ 5,00 por ação. Ocorre quando a ação termina no strike da put ou abaixo dele.

Ponto de equilíbrio

Preço de compra da ação + custo líquido dos prêmios

No exemplo: R$ 100 + R$ 0 = R$ 100. Em um collar de custo zero, o ponto de equilíbrio é simplesmente o preço da ação no momento da montagem.

Quando usar um collar?

  • Proteger uma posição com custo baixo (ou zero): o collar é a forma mais barata de proteger uma carteira de ações com opções, porque a venda da call subsidia a compra da put. Para quem acha o custo da put de proteção pura muito alto, o collar é a alternativa natural.
  • Períodos de incerteza: eleições, divulgação de resultados, decisões de política monetária ou qualquer evento com potencial de movimentos bruscos. O investidor mantém a posição, mas dorme tranquilo sabendo qual é sua perda máxima.
  • Proteger lucros acumulados: quando uma ação já subiu bastante e o investidor não quer vender (por convicção de longo prazo ou por questões tributárias), o collar permite “congelar” boa parte do ganho sem se desfazer da posição.
  • Perfil conservador com ações: investidores que aceitam trocar potencial de alta por previsibilidade encontram no collar um meio-termo entre ficar 100% exposto e sair da posição.

O collar não é indicado quando o investidor está fortemente otimista com a ação — nesse caso, a call vendida limitaria justamente os ganhos que ele espera capturar.

Como gerenciar

Quando fechar

Se a ação subir e se aproximar do strike da call vendida antes do vencimento, o investidor pode encerrar toda a estrutura (vender as ações, vender a put e recomprar a call) para realizar um resultado próximo do lucro máximo sem esperar o vencimento. Da mesma forma, se a tese sobre a ação mudar completamente, pode ser melhor desmontar tudo do que manter uma posição em que já não acredita.

Quando rolar

Ao se aproximar o vencimento, se o investidor ainda quiser proteção, pode rolar a estrutura: recomprar a call vendida, vender a put (se ainda tiver valor) e montar um novo collar com strikes e vencimento mais distantes, ajustados ao novo preço da ação. Na prática, muitos investidores mantêm collars de forma contínua, rolando a estrutura a cada vencimento.

Ajustes intermediários
  • Se a ação cair bastante, a put comprada ganha valor. O investidor pode vendê-la com lucro e comprar outra put de strike mais baixo, embolsando a diferença — mas isso rebaixa o nível de proteção.
  • Se a ação subir bastante, a call vendida pode ser recomprada e vendida novamente em um strike mais alto (normalmente pagando por isso), reabrindo espaço para ganhos adicionais.

Diferenças no Brasil: na B3, as opções de compra (calls) sobre ações são do tipo americano — podem ser exercidas a qualquer momento até o vencimento —, enquanto as opções de venda (puts) sobre ações são do tipo europeu, exercíveis apenas no vencimento. Isso significa que a “trava” de proteção da put vale para a data de vencimento, mas a call vendida do seu collar pode ser exercida antecipadamente — algo que costuma acontecer perto de eventos como o pagamento de dividendos, quando pode valer a pena para o titular da call exercê-la antes. Estruturas de collar são bastante comuns no Brasil dentro de produtos estruturados (frequentemente com o nome “Fence”) oferecidos por instituições financeiras — entender a mecânica por trás delas ajuda a avaliar se o produto faz sentido para você. Quanto à margem: como a call vendida está coberta pelas ações em custódia, em geral não há exigência de margem adicional para essa perna, o que torna o collar acessível mesmo para investidores que não operam com garantias adicionais.

Collar resumido

Um collar combina 100 ações compradas, 1 put comprada abaixo do preço atual e 1 call vendida acima do preço atual. É, essencialmente, uma venda coberta somada a uma put de proteção: a call vendida financia o seguro da put.

A estratégia limita tanto o prejuízo (pela put) quanto o lucro (pela call). Quando os prêmios das duas opções se anulam, a estrutura não custa nada para ser montada — o collar de custo zero.

É a escolha natural de quem quer permanecer posicionado em uma ação com viés levemente otimista, mas prioriza proteção: em troca de abrir mão dos ganhos acima do strike da call, o investidor sabe de antemão exatamente qual é sua perda máxima.

Perguntas frequentes

O que é um collar de custo zero?

É o collar em que o prêmio recebido pela venda da call é igual ao prêmio pago pela compra da put, de modo que a proteção não gera desembolso líquido. No nosso exemplo, a put de R$ 95 custou R$ 2,50 e a call de R$ 105 rendeu R$ 2,50 — custo líquido zero. Na prática, para zerar o custo, muitas vezes é preciso ajustar os strikes (aproximar a call ou afastar a put do preço atual).

Qual a diferença entre um collar e uma put de proteção?

A put de proteção é apenas ação + put comprada: protege contra quedas e mantém todo o potencial de alta, mas o investidor paga integralmente o prêmio do seguro. O collar acrescenta a venda de uma call para financiar esse prêmio — o custo cai (ou zera), mas em troca o potencial de alta fica limitado ao strike da call.

Posso perder dinheiro com um collar?

Sim, mas a perda é limitada e conhecida desde o início. No exemplo desta página, o prejuízo máximo é de R$ 5,00 por ação (a distância entre o preço da ação, R$ 100, e o strike da put, R$ 95), não importa o quanto a ação caia. Essa previsibilidade é justamente o principal atrativo da estratégia.

O que acontece se a ação disparar enquanto tenho um collar montado?

Seus ganhos param no strike da call vendida. No exemplo, com a ação a R$ 112, o investidor vende as ações a R$ 105 pelo exercício da call e fica com R$ 5,00 de lucro por ação — abrindo mão dos R$ 7,00 restantes. Se você espera uma alta forte, o collar provavelmente não é a estratégia adequada.

Por que a call vendida do collar pode ser exercida antes do vencimento no Brasil?

Porque, na B3, as calls sobre ações são do tipo americano, ou seja, o titular pode exercê-las a qualquer momento até o vencimento. Isso tende a acontecer quando a call está bem dentro do dinheiro e há um evento próximo, como pagamento de dividendos, que torna o exercício antecipado vantajoso para o titular. Já as puts sobre ações são europeias — a sua proteção só pode ser exercida no vencimento, embora a put possa ser vendida no mercado a qualquer momento.


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