O que é um strangle, como funciona e como utilizá-lo?
Nível: Intermediário
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O que é um strangle?
Um strangle é uma estratégia composta por duas opções sobre o mesmo ativo e com o mesmo vencimento, mas com preços de exercício diferentes: uma put fora do dinheiro (OTM), com strike abaixo do preço atual da ação, e uma call fora do dinheiro (OTM), com strike acima do preço atual. Se você ainda não está familiarizado com os conceitos de dentro, no e fora do dinheiro, vale revisar a página sobre moneyness antes de continuar.
O strangle é a estratégia irmã do straddle. A diferença central é que, no straddle, a put e a call têm o mesmo strike (normalmente no dinheiro), enquanto no strangle os strikes são diferentes e fora do dinheiro. Essa diferença muda o perfil da estratégia:
- O strangle é mais barato que o straddle, porque opções fora do dinheiro custam menos — todo o prêmio delas é valor extrínseco, sem valor intrínseco embutido.
- Em compensação, o strangle precisa de um movimento maior do preço da ação para dar lucro, já que o preço precisa percorrer a distância até um dos strikes e ainda superar o custo pago.
Assim como o straddle, o strangle não é uma aposta direcional: quem monta a estratégia não está apostando que a ação vai subir ou cair, e sim no tamanho do movimento (ou na ausência dele, no caso da venda).
Existem duas formas de operar um strangle, e elas têm perfis de risco opostos:
- Compra de strangle (long strangle): compra a put OTM e compra a call OTM. Aposta em um movimento grande, para qualquer lado.
- Venda de strangle (short strangle): vende a put OTM e vende a call OTM. Aposta que a ação vai ficar dentro de uma faixa de preços.
Vamos examinar cada uma delas em detalhe, usando o mesmo exemplo numérico.
Compra de Strangle (Long Strangle)
Na compra de strangle, o trader compra uma put fora do dinheiro e uma call fora do dinheiro, ambas com o mesmo vencimento, pagando um débito pela posição. A tese é simples: a ação vai se mover muito — para cima ou para baixo, não importa — e um dos lados da posição vai valorizar o suficiente para pagar o custo total e ainda gerar lucro.
Pressuposto Direcional
Neutro — aposta em movimento grande, em qualquer direção
Ambiente De Volatilidade Implícita Ideal
Baixo (comprar opções baratas, esperando expansão da volatilidade ou movimento forte)
Tabela De Lucros/Perdas
Setup exemplo
Imagine que a ação ABC está sendo negociada a R$ 100 e o trader espera um movimento forte — por exemplo, na véspera da divulgação de um resultado importante — mas não sabe a direção. Ele monta o seguinte strangle:
- Compra 1 put strike R$ 95 por R$ 2,00
- Compra 1 call strike R$ 105 por R$ 2,00
- Débito total: R$ 4,00 por ação (R$ 400 por lote de 100 opções)
Cenários no vencimento
Prejuízo máximo: R$ 4,00. Se a ação terminar o vencimento entre R$ 95 e R$ 105, as duas opções expiram sem valor e o trader perde todo o débito pago. Repare que a faixa de prejuízo máximo do strangle é mais larga que a do straddle — no straddle, o prejuízo máximo só ocorre se a ação fechar exatamente no strike; no strangle, ele ocorre em toda a faixa entre os dois strikes.
Pontos de equilíbrio: R$ 91 e R$ 109. Para baixo, a put precisa ganhar valor intrínseco suficiente para cobrir os R$ 4,00 pagos: R$ 95 − R$ 4,00 = R$ 91. Para cima, a call precisa fazer o mesmo: R$ 105 + R$ 4,00 = R$ 109. Ou seja, a ação precisa se mover cerca de 9% em alguma direção só para a posição empatar.
Lucro: teoricamente ilimitado. Acima de R$ 109, cada real de alta da ação é um real de lucro. Abaixo de R$ 91, cada real de queda também é lucro (limitado apenas pelo fato de a ação não poder cair abaixo de zero).
Compare com o straddle equivalente: comprar a put e a call de strike R$ 100 custaria mais caro (as opções no dinheiro carregam mais prêmio), mas os pontos de equilíbrio ficariam mais próximos do preço atual. O strangle troca custo menor por exigência de movimento maior.
O inimigo do strangle comprado: o tempo
Como as duas opções são fora do dinheiro, todo o valor da posição é valor extrínseco — e valor extrínseco derrete com a passagem do tempo. Se a ação ficar parada, o strangle comprado perde valor dia após dia, mesmo sem a ação se mover contra o trader. Por isso, o long strangle costuma funcionar melhor quando a volatilidade implícita está baixa (opções baratas) e existe um catalisador claro no horizonte capaz de gerar um movimento forte.
Venda de Strangle (Short Strangle)
Na venda de strangle, o trader faz o oposto: vende a put fora do dinheiro e vende a call fora do dinheiro, recebendo um crédito. A tese aqui é que a ação vai permanecer dentro da faixa entre os dois strikes até o vencimento, e as duas opções vão expirar sem valor — deixando todo o prêmio recebido como lucro.
Pressuposto Direcional
Neutro — aposta em pouco movimento, dentro de uma faixa
Ambiente De Volatilidade Implícita Ideal
Alto (vender opções caras, esperando contração da volatilidade e passagem do tempo)
Tabela De Lucros/Perdas
Setup exemplo
Usando os mesmos números, com a ação ABC a R$ 100:
- Vende 1 put strike R$ 95 por R$ 2,00
- Vende 1 call strike R$ 105 por R$ 2,00
- Crédito total recebido: R$ 4,00 por ação (R$ 400 por lote de 100 opções)
Cenários no vencimento
Lucro máximo: R$ 4,00. Se a ação terminar o vencimento em qualquer preço entre R$ 95 e R$ 105, as duas opções expiram sem valor e o vendedor fica com todo o crédito recebido. Essa faixa larga de lucro máximo é justamente o atrativo do short strangle em relação ao straddle vendido: a ação tem espaço para se mover sem gerar prejuízo.
Pontos de equilíbrio: R$ 91 e R$ 109. São os mesmos do strangle comprado, mas com o sinal invertido: abaixo de R$ 91 ou acima de R$ 109, a posição entra em prejuízo.
Prejuízo: alto e potencialmente ilimitado. Acima de R$ 109, cada real de alta da ação é um real de prejuízo — e não há teto para a alta de uma ação, então o risco no lado da call é ilimitado. Abaixo de R$ 91, o prejuízo cresce até o limite em que a ação vale zero, o que também representa uma perda muito grande em relação ao prêmio recebido.
Aqui o tempo trabalha a favor: se a ação ficar parada, o valor extrínseco das opções vendidas derrete e o vendedor pode recomprar a posição mais barata antes do vencimento, realizando parte do lucro.
Risco ilimitado e exigência de margem. O short strangle tem lucro limitado ao prêmio recebido e prejuízo potencialmente ilimitado no lado da call (e muito grande no lado da put). Um movimento brusco — um resultado surpreendente, uma notícia inesperada, um gap de abertura — pode gerar perdas muito superiores ao crédito recebido, sem chance de sair da posição no meio do caminho. Além disso, por envolver a venda de opções a descoberto, a estratégia exige depósito de margem de garantia, que pode ser elevada e aumentar se a posição andar contra você. Não é uma estratégia adequada para quem está começando nem para contas pequenas.
Lucro máximo, prejuízo máximo e equilíbrio
Strangle comprado (long)
Prejuízo máximo
Débito total pago (put + call) — ocorre se a ação fechar entre os dois strikes no vencimento
Lucro máximo
Ilimitado para cima; para baixo, limitado apenas pela ação chegar a zero
Pontos de equilíbrio
Equilíbrio inferior = strike da put − débito total pago
Equilíbrio superior = strike da call + débito total pago
Strangle vendido (short)
Lucro máximo
Crédito total recebido (put + call) — ocorre se a ação fechar entre os dois strikes no vencimento
Prejuízo máximo
Ilimitado para cima; para baixo, limitado apenas pela ação chegar a zero
Pontos de equilíbrio
Equilíbrio inferior = strike da put − crédito total recebido
Equilíbrio superior = strike da call + crédito total recebido
No exemplo: equilíbrios em R$ 95 − R$ 4,00 = R$ 91 e R$ 105 + R$ 4,00 = R$ 109, para as duas versões da estratégia.
Quando usar cada um
Considere o strangle comprado quando:
- Você espera um movimento grande no preço da ação, mas não tem convicção sobre a direção — por exemplo, antes de divulgação de resultados, decisões regulatórias ou eventos relevantes para a empresa.
- A volatilidade implícita está baixa, tornando as opções relativamente baratas. Comprar opções caras antes de um evento conhecido é arriscado: mesmo que a ação se mova, a queda da volatilidade implícita após o evento pode corroer boa parte do ganho.
- Você quer uma aposta em movimento com custo menor que o do straddle e aceita, em troca, precisar de um movimento maior para lucrar.
Considere o strangle vendido quando:
- Você espera que a ação fique dentro de uma faixa de preços até o vencimento, sem grandes surpresas no horizonte.
- A volatilidade implícita está alta, o que significa prêmios gordos para vender — e a expectativa de que a volatilidade caia joga a favor da posição.
- Você tem capital e margem suficientes para sustentar a posição, entende o risco ilimitado e tem um plano claro de gerenciamento (e de saída) antes de entrar na operação.
Em resumo: volatilidade implícita baixa favorece a compra; volatilidade implícita alta favorece a venda. Operar no sentido contrário — comprar strangles com opções caras ou vender strangles com prêmios magros — piora bastante as chances da estratégia.
Como gerenciar um strangle
No strangle comprado, o gerenciamento gira em torno do tempo. Como o valor extrínseco derrete cada vez mais rápido perto do vencimento, muitos traders evitam carregar a posição até o fim: se o movimento esperado acontecer cedo, pode valer a pena realizar o lucro em vez de esperar mais; se o movimento não vier, aceitar uma perda parcial e fechar a posição antes que o prêmio derreta por completo costuma ser melhor do que torcer até o último dia.
No strangle vendido, práticas comuns de gerenciamento incluem:
- Montar com prazo intermediário. Uma prática comum é entrar na posição com algo em torno de 45 dias até o vencimento — prazo em que ainda há bastante valor extrínseco para derreter e tempo suficiente para gerenciar a posição antes do vencimento.
- Fechar com uma porcentagem do lucro máximo. Em vez de esperar o vencimento para capturar 100% do crédito, muitos vendedores recompram o strangle quando a posição já capturou uma fração relevante do prêmio — por exemplo, metade. Isso reduz o tempo de exposição ao risco de um movimento brusco e libera margem para novas operações.
- Rolar o lado testado. Se a ação se aproxima de um dos strikes (o “lado testado”), uma defesa comum é rolar o lado não testado na direção do preço: por exemplo, se a ação sobe em direção ao strike da call, o trader recompra a put vendida (que já perdeu valor) e vende outra put de strike mais alto, coletando mais crédito. Esse crédito adicional aumenta o lucro potencial e afasta o ponto de equilíbrio do lado pressionado. Também é possível rolar a posição inteira para um vencimento mais distante, ganhando tempo e crédito extra.
- Definir um limite de perda antes de entrar. Como o risco é ilimitado, ter um critério objetivo de saída — por exemplo, encerrar se o prejuízo atingir um múltiplo do crédito recebido — evita que uma operação de renda vire uma perda catastrófica.
Diferenças no Brasil: na B3, opções com strikes fora do dinheiro frequentemente têm pouca liquidez — mesmo em ações de grande porte, os strikes mais distantes podem apresentar spreads largos entre compra e venda, o que encarece a montagem e principalmente a desmontagem de um strangle. Vale checar o livro de ofertas dos dois strikes antes de montar a posição. O short strangle, por envolver duas opções vendidas a descoberto, exige depósito de margem de garantia relevante, que pode aumentar se a ação andar contra a posição. Lembre também que, na B3, as calls sobre ações são tipicamente americanas (podem ser exercidas antes do vencimento) e as puts, europeias — o vendedor da call de um strangle pode ser exercido antecipadamente, em especial perto de datas de dividendos. Nos Estados Unidos, o short strangle é bastante popular em opções sobre índices, que são europeias e têm liquidação financeira (sem entrega de ações); no Brasil, o papel mais próximo desse perfil é o das opções de índice.
Strangle resumido
Um strangle combina uma put fora do dinheiro e uma call fora do dinheiro, com o mesmo vencimento e strikes diferentes. É a estratégia irmã do straddle: mais barata de montar, mas exigindo um movimento maior do preço para lucrar (na compra) ou oferecendo uma faixa mais larga de lucro (na venda).
O strangle comprado paga um débito e lucra com movimentos grandes em qualquer direção. No exemplo, com a ação a R$ 100, put de R$ 95 e call de R$ 105 compradas por R$ 2,00 cada: prejuízo máximo de R$ 4,00 se a ação ficar entre os strikes, e equilíbrios em R$ 91 e R$ 109. Funciona melhor com volatilidade implícita baixa.
O strangle vendido recebe um crédito e lucra se a ação ficar dentro da faixa entre os strikes. No mesmo exemplo: lucro máximo de R$ 4,00 entre R$ 95 e R$ 105, com os mesmos equilíbrios de R$ 91 e R$ 109 — mas com risco alto e potencialmente ilimitado além deles, além de exigência de margem. Funciona melhor com volatilidade implícita alta e exige gerenciamento disciplinado.
Perguntas frequentes
Qual é a diferença entre um strangle e um straddle?
No straddle, a put e a call têm o mesmo strike, normalmente no dinheiro. No strangle, os strikes são diferentes e fora do dinheiro: a put abaixo e a call acima do preço atual. Por usar opções fora do dinheiro, o strangle é mais barato de comprar, mas precisa de um movimento maior do preço para atingir o equilíbrio. Na venda, o strangle oferece uma faixa mais larga de lucro máximo, em troca de um prêmio total menor.
O strangle comprado tem risco limitado?
Sim. Na compra de um strangle, o pior cenário é perder todo o débito pago — no exemplo, R$ 4,00 por ação — o que acontece se a ação fechar entre os dois strikes no vencimento. Não há risco além do valor investido, e por isso a compra de strangle não exige margem de garantia. O risco prático, porém, é relevante: se a ação ficar parada, a perda total do prêmio é o desfecho mais provável.
Por que o strangle vendido é considerado uma estratégia arriscada?
Porque o lucro é limitado ao crédito recebido, mas o prejuízo é potencialmente ilimitado no lado da call e muito grande no lado da put. Um gap forte de abertura pode gerar uma perda várias vezes maior que o prêmio recebido, sem oportunidade de sair no meio do caminho. Além disso, a posição exige margem de garantia, que pode aumentar justamente quando a operação está andando contra você.
Quando devo fechar um strangle vendido?
Uma prática comum é não esperar o vencimento: recomprar o strangle quando a posição já capturou uma fração relevante do lucro máximo — por exemplo, metade do crédito recebido — reduz o tempo de exposição ao risco de movimentos bruscos. Também é prudente definir, antes de entrar, um limite objetivo de perda (por exemplo, um múltiplo do crédito recebido) e encerrar a posição se ele for atingido.
O que significa “rolar o lado testado” em um strangle vendido?
Quando a ação se aproxima de um dos strikes vendidos, esse lado é chamado de “testado”. Uma defesa comum é ajustar o lado oposto (não testado), que já perdeu boa parte do valor: recomprá-lo barato e vender um novo strike mais próximo do preço atual, coletando crédito adicional. Esse crédito extra melhora o ponto de equilíbrio do lado pressionado. Alternativamente, a posição inteira pode ser rolada para um vencimento mais distante, ganhando tempo para a tese se confirmar.