O que é uma trava calendário, como funciona e como utilizá-la?

Nível: Avançado

Conteúdo

O que é uma trava calendário?

A trava calendário é uma estratégia montada com duas opções do mesmo tipo (duas calls ou duas puts), com o mesmo strike, mas com vencimentos diferentes: o trader vende a opção do vencimento mais curto e, ao mesmo tempo, compra a opção do vencimento mais longo.

Como a opção longa custa mais do que a opção curta (ela tem mais tempo até o vencimento e, portanto, mais valor extrínseco), a estrutura é montada pagando um débito.

A lógica central da estratégia é explorar a passagem do tempo. Entre as gregas, o theta mede quanto uma opção perde de valor a cada dia que passa — e essa corrosão é mais rápida nas opções próximas do vencimento. Ou seja: a opção curta (vendida) perde valor mais depressa do que a opção longa (comprada). Se o preço da ação permanecer perto do strike escolhido, a perna vendida derrete rapidamente enquanto a perna comprada ainda preserva boa parte do seu valor extrínseco — e essa diferença é o lucro da posição.

Saiba mais sobre as opções.

Outros nomes

Calendário

Horizontal spread

Time spread

Pressuposto direcional

Neutro em torno do strike escolhido. O cenário ideal é que a ação termine o vencimento curto o mais próximo possível do strike — nem muito acima, nem muito abaixo. A estrutura também pode funcionar com um leve viés de alta ou de baixa: basta escolher um strike um pouco acima ou abaixo do preço atual da ação, na direção esperada.

Ambiente de volatilidade implícita ideal

Baixo na montagem. A trava calendário é uma estrutura “vega positiva”: como a opção longa é mais sensível à volatilidade do que a opção curta, a posição como um todo ganha valor se a volatilidade implícita subir depois da montagem. Por isso, montar o calendário quando a volatilidade está baixa oferece duas fontes potenciais de ganho: a passagem do tempo e uma eventual alta da volatilidade.

Gráfico de lucro/perda

Gráfico aproximado de lucro e prejuízo de uma trava calendário

Aqui há uma diferença importante em relação à maioria das outras estratégias. Em uma trava de alta ou em um condor, por exemplo, todas as pernas vencem na mesma data, e o resultado no vencimento é uma linha exata, calculável de antemão. Na trava calendário, no vencimento da opção curta a opção longa ainda existe e ainda tem valor de mercado — e esse valor depende da volatilidade implícita e do tempo restante naquele momento.

Por isso, o perfil de lucro e prejuízo no vencimento curto não é formado por retas, e sim por uma curva: o resultado em cada preço da ação depende de quanto a opção longa estará valendo. O gráfico acima é, portanto, uma aproximação — o formato geral (lucro máximo perto do strike, perda limitada ao débito nas pontas) se mantém, mas os valores exatos só serão conhecidos na prática.

Setup

Venda 1 opção (call ou put) no strike escolhido, no vencimento mais próximo

Compre 1 opção do mesmo tipo, no mesmo strike, em um vencimento posterior

A estrutura é montada pagando um débito líquido, que representa o risco máximo da operação.

Exemplo prático

Imagine que a ação hipotética ABC está sendo negociada a R$ 100 e o trader acredita que ela ficará de lado, perto desse nível, no próximo mês. Ele então monta uma trava calendário com calls no strike R$ 100:

  • Vende 1 call de strike R$ 100 do vencimento próximo (30 dias) por R$ 2,00
  • Compra 1 call de strike R$ 100 do vencimento seguinte (60 dias) por R$ 3,50

O débito líquido é de R$ 1,50 por ação (R$ 3,50 − R$ 2,00), ou R$ 150 por estrutura, já que cada contrato representa 100 ações. Esse débito é o máximo que o trader pode perder.

Agora vejamos os cenários possíveis no vencimento da call curta (30 dias depois):

Cenário 1 — ABC continua perto de R$ 100. A call vendida expira sem valor (ou quase sem valor), e o trader fica com todo o prêmio de R$ 2,00 recebido. A call comprada, que ainda tem 30 dias de vida, preserva boa parte do seu valor extrínseco — perto do dinheiro, ela pode estar valendo algo em torno de R$ 2,50, dependendo da volatilidade do momento. Nesse caso, a estrutura que custou R$ 1,50 pode ser vendida por cerca de R$ 2,50, gerando lucro. Esse é o melhor cenário.

Cenário 2 — ABC sobe muito (por exemplo, para R$ 115). A call vendida termina bem dentro do dinheiro e o trader precisa pagar seu valor intrínseco. A call comprada também está dentro do dinheiro e cobre essa perda, mas ambas passam a valer praticamente só valor intrínseco — a diferença entre elas encolhe e tende ao valor extrínseco residual da longa, que é pequeno quando a opção está muito dentro do dinheiro. O resultado se aproxima da perda do débito pago.

Cenário 3 — ABC cai muito (por exemplo, para R$ 85). As duas calls perdem quase todo o valor. A curta expira sem valor (o que é bom), mas a longa também vale muito pouco. O resultado, novamente, se aproxima da perda do débito de R$ 1,50 por ação.

Lucro máximo, prejuízo máximo e equilíbrio

Prejuízo máximo: limitado ao débito pago na montagem — no exemplo, R$ 1,50 por ação (R$ 150 por estrutura). Isso ocorre quando a ação se afasta muito do strike, para qualquer um dos lados.

Lucro máximo: ocorre quando a ação termina o vencimento curto exatamente no strike (R$ 100 no exemplo). Nesse ponto, a opção curta expira sem valor e a opção longa retém o máximo possível de valor extrínseco. Diferentemente de outras travas, porém, o lucro máximo não pode ser calculado com exatidão de antemão: ele depende de quanto a opção longa estará valendo no vencimento curto, o que por sua vez depende da volatilidade implícita naquele momento. Como referência, um dos desfechos mais positivos possíveis para um calendário é a estrutura dobrar de preço em relação ao débito pago.

Pontos de equilíbrio: existem dois, um abaixo e um acima do strike, mas pela mesma razão eles não podem ser determinados com precisão na montagem — dependem do valor de mercado da opção longa no vencimento curto. É possível estimá-los com modelos de precificação, mas trate qualquer número como estimativa, não como garantia. Uma regra prática comum é considerar que eles ficam a cerca de um strike de distância do strike do calendário, para cada lado.

Quando usar

  • Expectativa de mercado de lado: quando a tese é que a ação ficará perto de um determinado preço até o vencimento curto, o calendário permite lucrar com a passagem do tempo com risco limitado e conhecido.
  • Volatilidade implícita baixa: por ser uma estrutura vega positiva, o calendário se beneficia se a volatilidade subir. Montá-lo quando a volatilidade está historicamente baixa adiciona uma segunda fonte potencial de ganho.
  • Eventos após o vencimento curto: uma aplicação clássica é quando existe um evento relevante (divulgação de resultados, por exemplo) logo depois do vencimento da opção curta. A perna curta derrete normalmente, enquanto a perna longa tende a segurar valor por causa da expectativa do evento.
  • Risco definido: como o prejuízo máximo é o débito pago, o trader sabe exatamente quanto está arriscando desde o primeiro dia.

Vale o alerta: por envolver dois vencimentos, duas volatilidades implícitas e um resultado que não é totalmente determinístico, a trava calendário exige mais familiaridade com as gregas do que estratégias de vencimento único. Não é uma boa primeira estratégia.

Como gerenciar/fechar

Fechar tudo no vencimento curto (ou antes): a forma mais simples de gerenciar. Quando a opção curta já perdeu a maior parte do valor extrínseco — ou quando o lucro desejado foi atingido —, o trader recompra a perna curta e vende a perna longa, encerrando a estrutura de uma vez. Uma referência comum de gestão é realizar o ganho quando o lucro atinge algo entre 10% e 25% do débito pago, sem esperar o resultado ideal. Muitos traders não esperam até o último dia, para evitar o risco de exercício da perna vendida.

Rolar a perna curta: se a tese de mercado de lado continua válida, o trader pode recomprar a opção curta perto do vencimento e vender uma nova opção no mesmo strike, no vencimento seguinte — transformando o calendário original em um novo calendário e coletando prêmio adicional. Cada rolagem reduz o custo líquido da posição.

Deixar virar uma compra a seco: se a opção curta expirar sem valor, o trader fica apenas com a opção longa comprada. Ele pode mantê-la como uma aposta direcional, mas deve lembrar que, a partir daí, o theta joga contra a posição.

Virar uma diagonal: ao rolar a perna curta, o trader pode escolher um strike diferente do original (por exemplo, mais distante do preço atual da ação), transformando o calendário em uma trava diagonal e ajustando o viés direcional da posição.

Variação: trava diagonal

A trava diagonal é a “prima” da trava calendário: também combina uma opção vendida no vencimento curto com uma opção comprada no vencimento longo, mas usa strikes diferentes em cada perna. Isso adiciona um componente direcional à estrutura — dependendo dos strikes escolhidos, a diagonal pode ter viés de alta ou de baixa, em vez de ser puramente neutra. Em troca, o perfil de risco fica um pouco mais complexo de analisar, já que combina os efeitos do tempo, da volatilidade e da direção do preço ao mesmo tempo.

Diferenças no Brasil: na B3, as opções sobre ações têm vencimentos mensais (na terceira sexta-feira do mês), e a “grade” de vencimentos disponíveis é bem menor do que no mercado americano, onde existem séries semanais líquidas — isso limita as combinações possíveis de vencimentos para montar o calendário. Além disso, a liquidez cai muito nos vencimentos mais longos: os spreads entre compra e venda tendem a ser largos na perna longa, o que encarece a montagem e a saída da posição. Por fim, as calls de ações na B3 são de estilo americano, ou seja, a perna curta pode ser exercida antecipadamente — em especial quando está dentro do dinheiro perto de datas de proventos —, o que exige atenção redobrada ao carregar a posição até perto do vencimento curto.

Trava calendário resumida

A trava calendário combina a venda de uma opção de vencimento curto com a compra de uma opção do mesmo tipo e mesmo strike em um vencimento mais longo, montada por um débito líquido.

A estratégia lucra principalmente com a passagem do tempo: a opção curta perde valor extrínseco mais rápido do que a opção longa. O cenário ideal é a ação terminar o vencimento curto perto do strike escolhido, com a volatilidade implícita estável ou em alta.

O prejuízo máximo é limitado ao débito pago. O lucro máximo ocorre perto do strike, mas não pode ser calculado com exatidão de antemão, pois depende do valor da opção longa no vencimento curto.

Por envolver dois vencimentos e um resultado que depende da volatilidade, é uma estratégia de nível avançado — recomendável apenas para quem já domina as gregas e estratégias mais simples.

Perguntas frequentes

O que é uma trava calendário e como funciona?

É uma estratégia em que o trader vende uma opção de vencimento curto e compra uma opção do mesmo tipo e mesmo strike em um vencimento mais longo, pagando um débito. Ela lucra com a passagem do tempo, porque a opção curta perde valor extrínseco mais rápido do que a opção longa. O cenário ideal é a ação terminar o vencimento curto perto do strike.

Qual é o risco máximo de uma trava calendário?

O risco máximo é o débito pago na montagem — no exemplo desta página, R$ 1,50 por ação. Ele ocorre quando a ação se afasta muito do strike, para cima ou para baixo, fazendo com que a diferença de valor entre as duas opções praticamente desapareça.

Por que não é possível calcular o lucro máximo e o breakeven com exatidão?

Porque, no vencimento da opção curta, a opção longa ainda existe e seu valor depende da volatilidade implícita e do tempo restante naquele momento. Como esse valor não é conhecido de antemão, o lucro máximo e os pontos de equilíbrio só podem ser estimados por modelos de precificação — não são números fixos como em travas de vencimento único.

A trava calendário ganha ou perde com a alta da volatilidade?

Ganha. A estrutura é vega positiva: a opção longa é mais sensível à volatilidade do que a opção curta, então uma alta da volatilidade implícita depois da montagem tende a aumentar o valor da posição. Por isso o ambiente ideal para montar o calendário é de volatilidade baixa.

O que acontece se a opção curta for exercida antes do vencimento?

No Brasil, as calls de ações na B3 são de estilo americano e podem ser exercidas antecipadamente, especialmente quando estão dentro do dinheiro. Se isso ocorrer, o trader fica com uma posição vendida em ações protegida pela call longa — o risco continua limitado, mas a estrutura original se desfaz e é preciso decidir entre encerrar tudo ou remontar a posição. Para reduzir essa chance, muitos traders evitam carregar a perna curta dentro do dinheiro até perto do vencimento.


Voltar para o topo

Copyright © 2024. Todos os direitos.

Manual de Opções - v0.1
IR de investimentos no exterior: Valr