O que é uma borboleta assimétrica, como funciona e como utilizá-la?

Nível: Avançado

Conteúdo

O que é uma borboleta assimétrica?

A borboleta assimétrica (broken wing butterfly) é uma variação da borboleta em que uma das asas fica mais distante do strike central do que a outra. Em vez de usar três strikes equidistantes, o trader “pula” um strike ao posicionar uma das asas — quebrando a simetria da estrutura e, com ela, o perfil de risco.

Essa quebra tem um objetivo claro: ao afastar uma das asas, a trava de crédito daquele lado fica mais larga e recebe mais prêmio, o suficiente para pagar (ou mais que pagar) o custo da trava de débito do outro lado. O resultado é uma borboleta montada por crédito líquido ou custo próximo de zero — em vez do débito que a borboleta simétrica exige.

A consequência mais importante aparece no perfil de resultado: quando a estrutura é montada por crédito, um dos lados da operação deixa de ter risco. Se todas as opções expirarem sem valor, o trader simplesmente fica com o crédito recebido. Todo o risco da posição se concentra do lado da asa deslocada.

Uma forma útil de enxergar a borboleta assimétrica é como a soma de duas travas que dividem o mesmo strike vendido: uma trava de débito estreita e uma trava de crédito mais larga. A trava de crédito larga financia a trava de débito — e é a diferença de larguras entre elas que define o risco máximo.

Por envolver quatro pernas, um viés direcional embutido e uma zona de risco concentrada em um único lado, é uma estratégia de nível avançado: vale dominar antes a borboleta simétrica e as travas de débito e de crédito.

Outros nomes

Broken wing butterfly

BWB

Skip strike butterfly (borboleta com strike pulado)

Pressuposto direcional

Neutro com viés. Como a borboleta comum, o cenário ideal é a ação terminar no strike central no vencimento. A diferença é que a assimetria elimina o risco de um dos lados: na versão com calls por crédito (como no exemplo desta página), a queda do ativo deixa de ser um problema — se a ação despencar, o trader fica com o crédito. O risco passa a existir apenas se a ação subir demais, atravessando a asa deslocada. A estrutura, portanto, tolera bem o movimento contra o lado “quebrado” e ganha um leve viés direcional a favor do lado sem risco.

Ambiente de volatilidade implícita ideal

Alto. Assim como a borboleta simétrica, a assimétrica é uma estrutura líquida vendida em volatilidade: beneficia-se da queda da volatilidade implícita e da passagem do tempo. Volatilidade alta na montagem engorda o prêmio das opções vendidas no centro e da trava de crédito larga — o que facilita montar a operação por crédito. Se a volatilidade contrair depois e a ação ficar perto do corpo, os dois efeitos jogam a favor.

Gráfico de lucro/perda

Gráfico de lucro e prejuízo de uma borboleta assimétrica de calls

O gráfico deixa a assimetria evidente: à esquerda, uma linha reta acima de zero — não há prejuízo possível na queda, apenas o crédito retido. O pico de lucro continua no strike central, mas há um único ponto de equilíbrio, do lado da asa deslocada, e além dele um patamar de prejuízo máximo limitado. Compare com a borboleta simétrica, que tem dois pontos de equilíbrio e perde o débito nos dois extremos.

Setup

Usando calls, todas com o mesmo vencimento, com a asa de cima deslocada (um strike “pulado”):

  1. Compre 1 call no strike inferior (asa de baixo)
  2. Venda 2 calls no strike central (corpo)
  3. Compre 1 call em um strike mais distante acima (asa de cima, pulando o strike equidistante)

No exemplo desta página, a asa de baixo fica a 5 pontos do centro e a asa de cima a 10 — a asa “pulada” é a de cima. A montagem gera um crédito líquido, e todo o risco fica concentrado na alta. A versão com puts é o espelho: pula-se um strike na asa de baixo e o risco se concentra na queda.

A escolha dos strikes é o coração da operação — a largura de cada asa define crédito, risco e viés. Se precisar revisar os critérios, veja como escolher o strike certo.

Exemplo prático

Imagine que a ação ABC está sendo negociada a cerca de R$ 100 e o trader espera lateralidade, com viés de que uma queda é mais provável do que uma alta forte. Ele monta a seguinte borboleta assimétrica com calls:

  • Compra 1 call de strike R$ 95 por R$ 6,00
  • Vende 2 calls de strike R$ 100 por R$ 3,50 cada (recebe R$ 7,00)
  • Compra 1 call de strike R$ 110 por R$ 0,50

Crédito líquido: −R$ 6,00 + R$ 7,00 − R$ 0,50 = R$ 0,50 por ação (R$ 50 por estrutura, já que cada contrato representa 100 ações). Repare na assimetria: a asa de baixo está a 5 pontos do centro (95/100) e a asa de cima a 10 pontos (100/110) — o strike R$ 105, que a borboleta simétrica usaria, foi pulado.

Vamos analisar os principais cenários no vencimento:

Cenário 1 — ABC abaixo de R$ 95 (lado sem risco): todas as calls expiram sem valor. O trader fica com o crédito de R$ 0,50 por ação. Não importa se a ação cai para R$ 90 ou R$ 70 — não há prejuízo possível na queda.

Cenário 2 — ABC exatamente em R$ 100 (lucro máximo): a call de R$ 95 vale R$ 5,00 e as demais expiram sem valor. Somando o crédito de R$ 0,50, o lucro é de R$ 5,50 por ação (R$ 550 por estrutura).

Cenário 3 — ABC em R$ 105,50 (ponto de equilíbrio): a call de R$ 95 vale R$ 10,50, as duas calls vendidas de R$ 100 custam R$ 5,50 cada (−R$ 11,00) e a de R$ 110 expira sem valor. A estrutura vale −R$ 0,50, que é exatamente compensado pelo crédito recebido — resultado zero.

Cenário 4 — ABC acima de R$ 110 (prejuízo máximo): digamos, em R$ 115: a call de R$ 95 vale R$ 20,00, as vendidas de R$ 100 custam R$ 15,00 cada (−R$ 30,00) e a de R$ 110 vale R$ 5,00. A estrutura vale −R$ 5,00; com o crédito de R$ 0,50, o prejuízo fica travado em R$ 4,50 por ação (R$ 450 por estrutura), não importa o quanto a ação suba.

Em resumo: o trader não perde na queda, ganha até R$ 5,50 se a ação parar perto de R$ 100 e arrisca no máximo R$ 4,50 se a alta for forte.

Lucro máximo, prejuízo máximo e ponto de equilíbrio

Lucro máximo

Largura da asa curta + crédito recebido

No exemplo: R$ 5,00 + R$ 0,50 = R$ 5,50 por ação. Ocorre se a ação fechar exatamente no strike central (R$ 100) no vencimento.

Prejuízo máximo

Diferença entre as larguras das asas − crédito recebido

No exemplo: (R$ 10,00 − R$ 5,00) − R$ 0,50 = R$ 4,50 por ação. Ocorre se a ação fechar acima da asa deslocada (R$ 110) no vencimento.

Ponto de equilíbrio

Strike central + largura da asa curta + crédito recebido

No exemplo: R$ 100 + R$ 5,00 + R$ 0,50 = R$ 105,50. Há apenas um ponto de equilíbrio — do lado da asa deslocada. No lado oposto, o pior resultado é ficar com o crédito.

Comparação com estruturas próximas

Borboleta simétrica: montada por débito, com strikes equidistantes e risco (pequeno) dos dois lados. A assimétrica troca esse débito por um crédito e elimina o risco de um lado — em compensação, o prejuízo máximo do lado quebrado é maior que o débito da simétrica, e a probabilidade de lucro muda de perfil: montada por crédito, a operação lucra em qualquer cenário abaixo do ponto de equilíbrio, e não apenas na faixa estreita entre dois breakevens.

Ratio spread: a borboleta assimétrica pode ser lida como um ratio spread com proteção. No exemplo, comprar 1 call de 95 e vender 2 de 100 é exatamente um ratio 1x2 — que deixaria risco ilimitado na alta. A call de 110 comprada é a “asa” que trava esse risco em R$ 4,50. Paga-se um pouco do crédito (os R$ 0,50 da call de 110) para transformar risco aberto em risco definido.

Iron butterfly: também é montado por crédito, mas combina calls e puts com asas simétricas e mantém risco dos dois lados. A broken wing usa um único tipo de opção e concentra o risco em um lado só.

Quando usar

  • Visão neutra com viés direcional: o cenário-base é a ação parar perto do strike central, mas o trader quer estar protegido caso o movimento contra o lado sem risco aconteça. No exemplo com calls, a operação combina “acho que fica parado” com “se mexer, acho que cai”.
  • Volatilidade implícita alta: prêmios gordos nas opções vendidas tornam mais fácil montar a estrutura por crédito — e a contração posterior da volatilidade beneficia a posição.
  • Busca de operação sem risco em um dos lados: montada por crédito, a estrutura não tem cenário de perda se a ação for na direção “certa” ou ficar parada abaixo do corpo. O trader só perde se o movimento adverso for grande o suficiente para atravessar o ponto de equilíbrio.
  • Risco definido com pouco capital: diferentemente do ratio spread, o prejuízo máximo é conhecido desde a montagem, o que limita as garantias exigidas.

A contrapartida: o lucro máximo continua exigindo precisão (ação no strike central no vencimento), e o prejuízo máximo do lado quebrado é várias vezes o crédito recebido — no exemplo, arrisca-se R$ 4,50 para um crédito de R$ 0,50 no pior cenário de “não fazer nada”.

Como gerenciar/fechar

Quando fechar

O ideal é não levar a estrutura até o vencimento. Uma prática comum é encerrar a posição ao capturar em torno de 50% do lucro máximo potencial, ou quando a ação se aproxima do strike central com o tempo já bastante corroído — esperar o “pino” exato no corpo raramente compensa o risco adicional dos últimos dias.

Se a ação caminha para a zona de risco

No exemplo, o sinal de alerta é a ação subir em direção a R$ 105–110. As opções principais são:

  • Fechar a estrutura inteira e aceitar um prejuízo parcial, antes que ele se aproxime do máximo.
  • Separar as travas: encerrar a trava de débito (95/100), que estará valorizada com a alta, e administrar a trava de crédito (100/110) isoladamente — por exemplo, rolando-a para um vencimento mais distante em troca de crédito adicional, o que reduz o prejuízo máximo e dá mais tempo para a tese.

Cuidados na gestão

Perto do vencimento, com a ação entre os strikes, as calls vendidas do centro podem estar ITM enquanto as asas estão OTM — o resultado muda rápido e há risco de exercício das pernas vendidas. Se qualquer perna estiver ITM na reta final, feche a posição em vez de deixá-la expirar, para não ser surpreendido por um exercício indesejado. Somente se a estrutura inteira estiver claramente fora do dinheiro (no lado sem risco) faz sentido deixá-la simplesmente virar pó e reter o crédito.

Diferenças no Brasil: a borboleta assimétrica tem 4 pernas distribuídas em 3 strikes, e na B3 o strike mais distante — justamente a asa “pulada”, bem fora do dinheiro — costuma ser o de menor liquidez, com pouco negócio e spreads largos. Antes de montar, confira a grade de strikes disponível no vencimento escolhido: nem sempre existe um strike líquido na distância desejada, o que pode obrigar a ajustar as larguras das asas (e, com elas, o crédito e o risco da operação). Como o risco máximo é definido desde a montagem, as garantias exigidas ficam limitadas a esse valor — bem menos do que um ratio spread a descoberto exigiria. Para uma visão geral das diferenças estruturais entre os mercados, veja opções nos EUA vs. Brasil.

Resumo

A borboleta assimétrica é uma borboleta em que uma das asas é deslocada para mais longe do strike central — “pulando” um strike — de modo que a trava de crédito larga de um lado financie a trava de débito estreita do outro. O resultado típico é uma montagem por crédito líquido ou custo próximo de zero.

A assimetria elimina o risco de um dos lados: se a ação for na direção oposta à asa deslocada (ou ficar parada fora da estrutura), o trader retém o crédito. Todo o risco se concentra no lado quebrado, limitado à diferença entre as larguras das asas menos o crédito.

No exemplo desta página (calls 95/100/100/110 com o ativo a R$ 100): crédito de R$ 0,50, lucro máximo de R$ 5,50 com a ação em R$ 100 no vencimento, nenhum risco abaixo de R$ 95, equilíbrio único em R$ 105,50 e prejuízo máximo de R$ 4,50 acima de R$ 110.

É uma estrutura para cenários neutros com viés, favorecida por volatilidade implícita alta, e pode ser lida como um ratio spread com a proteção de uma asa comprada. A gestão ideal encerra a posição antes do vencimento — capturando parte do lucro máximo ou desmontando/rolando as travas se a ação caminhar para a zona de risco.

Perguntas frequentes

O que é uma borboleta assimétrica (broken wing butterfly)?

É uma borboleta em que as asas não são equidistantes do strike central: uma delas é deslocada para um strike mais distante, “pulando” o strike que a versão simétrica usaria. Essa quebra permite montar a estrutura por crédito ou custo próximo de zero e elimina o risco de perda em um dos lados da operação, concentrando todo o risco no lado da asa deslocada.

Qual a diferença entre a borboleta assimétrica e a borboleta comum?

A borboleta simétrica é montada pagando débito, tem dois pontos de equilíbrio e perde o débito se a ação escapar por qualquer um dos lados. A assimétrica, quando montada por crédito, tem um único ponto de equilíbrio e não perde nada se a ação for para o lado da asa curta — em troca, o prejuízo máximo no lado quebrado é maior do que o débito que a simétrica arriscaria.

A borboleta assimétrica é o mesmo que um ratio spread?

É um ratio spread com proteção. As três primeiras pernas do exemplo (compra de 1 call de 95, venda de 2 calls de 100) formam um ratio 1x2, que teria risco ilimitado na alta. A quarta perna — a call comprada na asa deslocada — trava esse risco em um valor definido. O custo da proteção é uma pequena redução no crédito recebido.

Onde está o risco da operação do exemplo?

Apenas na alta. Abaixo de R$ 95, todas as opções viram pó e o trader retém o crédito de R$ 0,50. O prejuízo começa acima do ponto de equilíbrio de R$ 105,50 e atinge o máximo de R$ 4,50 por ação com a ação acima de R$ 110 no vencimento — limitado, não importa o tamanho da alta.

Preciso levar a operação até o vencimento?

Não, e em geral é melhor não levar. O lucro máximo exige a ação exatamente no strike central na expiração — um cenário improvável. A prática comum é encerrar ao capturar em torno de 50% do lucro máximo potencial, e agir antes se a ação caminhar para a zona de risco: fechar a estrutura, ou separar as travas e rolar a trava de crédito para ganhar tempo e reduzir o prejuízo máximo.


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