O que são contratos em aberto (open interest) e como usar esse número?
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O que são contratos em aberto?
Contratos em aberto — o open interest — é o número total de contratos de uma série de opções que foram abertos e ainda não foram encerrados. É a contagem de posições vivas naquele momento: cada contrato em aberto tem, de um lado, alguém comprado (call ou put) e, do outro, alguém vendido, e nenhum dos dois zerou a posição.
A contagem é feita por série: cada combinação de ativo, strike, tipo (call ou put) e vencimento tem seu próprio open interest, exibido como uma coluna na cadeia de opções. Calls e puts do mesmo strike são contadas separadamente.
Um detalhe operacional importante: o open interest não é atualizado em tempo real. Ele é apurado ao fim do pregão e divulgado consolidado — o número que você vê durante o dia reflete a posição do fechamento anterior. O volume, ao contrário, é atualizado ao longo do próprio pregão.
Open interest não é volume
Os dois números aparecem lado a lado na cadeia de opções e medem coisas diferentes:
- Volume conta quantos contratos foram negociados em um período (normalmente, no dia). Todo negócio soma ao volume, não importa se abriu ou fechou posição. O volume zera a cada pregão.
- Open interest conta quantos contratos continuam abertos. É um estoque acumulado: só muda quando negócios criam posições novas ou encerram posições existentes, e carrega o saldo de um dia para o outro.
Uma série pode ter volume alto num dia e open interest baixo (muita gente entrou e saiu no mesmo pregão), ou volume zero e open interest alto (posições grandes paradas, sem negócios hoje). Por isso os dois se complementam: o volume mostra a atividade imediata; o open interest mostra a profundidade do interesse acumulado na série.
Como os negócios criam e fecham contratos
Cada negócio tem duas pontas, e o efeito no open interest depende de cada ponta estar abrindo uma posição nova ou fechando uma existente:
| Ponta compradora | Ponta vendedora | Efeito no open interest |
|---|---|---|
| Abre posição nova | Abre posição nova | Sobe (contrato novo criado) |
| Abre posição nova | Fecha posição existente | Não muda (o contrato trocou de mãos) |
| Fecha posição existente | Abre posição nova | Não muda (o contrato trocou de mãos) |
| Fecha posição existente | Fecha posição existente | Cai (contrato encerrado) |
Um exemplo passo a passo, começando com uma série recém-listada (open interest zero):
- Dia 1 — Ana compra 100 contratos para abrir posição; Bruno lança (vende) 100 contratos para abrir. Foram criados 100 contratos novos: open interest vai de 0 para 100. Volume do dia: 100.
- Dia 2 — Ana vende seus 100 contratos para Carla, que está abrindo uma compra nova. Ana saiu, Carla entrou no lugar dela: os mesmos 100 contratos apenas mudaram de dono. Open interest continua em 100. Volume do dia: 100 — igual ao do dia 1, embora o efeito sobre o open interest tenha sido nenhum.
- Dia 3 — Carla vende os 100 contratos e, na outra ponta, Bruno recompra os 100 que havia lançado. As duas pontas estão encerrando posições: os contratos deixam de existir e o open interest volta a 0. Volume do dia: 100.
Repare que o volume foi 100 nos três dias, mas o open interest subiu, ficou parado e caiu. É exatamente essa diferença que torna os dois números úteis em conjunto.
O saldo diário funciona da mesma forma em escala de mercado: se num pregão foram abertos 1.000 contratos novos e encerrados 400, o open interest da série sobe 600; se foram abertos 300 e encerrados 900, cai 600.
Por que o open interest importa?
O open interest é, antes de tudo, um termômetro de liquidez. Uma série com muitos contratos em aberto tem mais participantes com posições vivas — gente que em algum momento vai precisar ajustar, rolar ou encerrar. Isso costuma se traduzir em:
- Spreads bid-ask mais apertados, porque há mais interesse competindo dos dois lados do livro;
- Facilidade para entrar e sair perto do preço justo, inclusive em quantidades maiores;
- Custo de transação menor, já que o “pedágio” do spread é a maior despesa invisível de quem opera opções;
- Formação de preço mais eficiente, com cotações que refletem melhor o consenso do mercado.
Já uma série com open interest baixo (ou zero) é um alerta: pode não haver contraparte quando você quiser sair, e o preço de saída pode ficar longe do teórico. Você pode até conseguir entrar numa série deserta — o problema aparece na hora de sair.
Variações bruscas também carregam informação: um salto repentino no open interest de um strike sugere que o mercado está montando posição ali, muitas vezes antes de eventos aguardados (balanços, decisões de juros). Não é um sinal direcional por si só — todo contrato tem um comprado e um vendido —, mas indica onde o interesse está se concentrando.
Como usar na prática ao escolher séries
Antes de montar qualquer operação, olhe open interest e volume juntos na cadeia de opções:
- Open interest razoável garante que existe um estoque de posições e contrapartes potenciais na série;
- Volume diário recorrente garante que esse interesse se converte em negócios de verdade, e não é só posição antiga parada;
- Spread bid-ask apertado confirma, na prática, que a liquidez é utilizável.
Um exemplo com PETR4: suponha a ação a R$ 37,80. A call de strike R$ 38,04 do vencimento mais curto pode acumular centenas de milhares de contratos em aberto e negociar dezenas de milhares por dia, com spread de R$ 0,01–0,02 — entrar e sair custa quase nada. Já uma call de strike R$ 46,00 de um vencimento distante pode exibir open interest zero: nenhum contrato vivo, nenhum negócio no dia, e um spread que, quando existe, chega a 15–20% do prêmio. Vender essa opção por R$ 0,30 e precisar recomprá-la às pressas por R$ 0,45 transforma uma operação teoricamente boa em prejuízo — sem que o ativo tenha se movido contra você.
O cuidado dobra em estruturas de várias pernas, como um iron condor ou uma trava de crédito: a liquidez da estrutura é limitada pela pior perna. Basta uma ponta em série deserta para você pagar spread caro na montagem e ficar refém do mercado na desmontagem. Verifique o open interest de cada strike envolvido, não só do que está perto do dinheiro.
Diferenças no Brasil: na B3, o open interest é extremamente concentrado. Pouquíssimos ativos têm mercado de opções relevante — PETR4, VALE3 e BOVA11 respondem pela imensa maioria dos contratos em aberto — e, mesmo neles, a liquidez se aglomera nos strikes perto do dinheiro do vencimento mais curto. Fora desse núcleo (ações de segunda linha, strikes distantes, vencimentos longos), é comum encontrar séries com open interest zero. Antes de montar estruturas de várias pernas, confira o open interest de cada série envolvida — no mercado brasileiro, a perna ilíquida é a regra, não a exceção.
Resumo
- Open interest é o número de contratos de uma série que foram abertos e ainda não foram encerrados — cada um com um comprado e um vendido nas pontas.
- Difere do volume: volume conta negócios do dia e zera a cada pregão; open interest é um estoque acumulado de posições vivas, apurado no fechamento.
- O número sobe quando as duas pontas do negócio abrem posição, cai quando as duas fecham e não muda quando o contrato apenas troca de mãos.
- Open interest alto costuma significar spreads mais apertados, saída fácil e custo menor; open interest baixo ou zero é alerta de que pode faltar contraparte.
- Use open interest e volume juntos ao escolher séries — e, em estruturas de várias pernas, verifique cada strike, porque a liquidez da estrutura é a da pior perna.
Perguntas frequentes
Open interest alto significa que o mercado está comprado ou vendido?
Nenhum dos dois. Todo contrato em aberto tem exatamente um comprado e um vendido — o open interest é neutro por construção. Ele mede quanto interesse existe na série, não para que lado o mercado aposta. Para leitura direcional, é preciso combinar com outras informações (fluxo, variação de preço, contexto do ativo).
Por que o open interest que vejo na plataforma não muda durante o pregão?
Porque ele é apurado no fechamento e divulgado de forma consolidada — o número exibido reflete a posição do fim do pregão anterior. Negócios de hoje só aparecem no open interest de amanhã. O volume, esse sim, é atualizado em tempo real ao longo do dia.
O que acontece com o open interest no vencimento?
As séries deixam de existir: contratos exercidos são liquidados e contratos que viram pó simplesmente expiram. O open interest daquele vencimento vai a zero, e o interesse do mercado migra para os vencimentos seguintes. Por isso é normal ver o open interest do vencimento curto crescer semana a semana e desaparecer de uma vez na data de expiração.
Posso operar uma série com open interest zero?
Tecnicamente sim — se houver alguém disposto a fechar negócio com você, o contrato é criado e o open interest sai do zero. O problema é prático: sem estoque de posições nem negócios recorrentes, o spread tende a ser largo e pode não haver contraparte quando você precisar sair. Se decidir operar mesmo assim, use ordens limitadas, aceite que a saída pode ser cara e evite depender dessa série em estruturas de várias pernas.
Volume alto num dia compensa open interest baixo?
Depende. Um pico isolado de volume pode ser um único negócio grande que entrou e saiu, ou uma montagem pontual que não se repetirá. O ideal é ver os dois sinais juntos: open interest consistente e volume recorrente dia após dia. Só volume, sem estoque de posições, não garante que haverá liquidez amanhã, quando você quiser desmontar.