O que são LEAPS, como funcionam e como utilizá-las?

Nível: Intermediário

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O que são LEAPS?

LEAPS (sigla em inglês para Long-term Equity AnticiPation Securities) são opções comuns — calls e puts como quaisquer outras — com uma única diferença: o vencimento fica a cerca de 1 ano ou mais da data atual, podendo chegar a 2 ou 3 anos. Fora o prazo, elas funcionam exatamente como as opções de vencimento curto: mesmos strikes, mesmo mecanismo de exercício, mesmas gregas.

O que muda na prática é o comportamento do prêmio ao longo do tempo. Com muito mais dias até o vencimento, uma LEAPS carrega muito mais valor extrínseco do que uma opção curta de mesmo strike — por isso ela custa mais caro em termos absolutos. Em compensação, esse valor extrínseco se dilui por centenas de dias: o theta diário é pequeno no início da vida da opção e só acelera de verdade quando o vencimento se aproxima. Comprar uma LEAPS é, em essência, pagar mais para sofrer menos com a passagem do tempo a cada dia.

Nesta página o foco é o uso mais comum: a compra de uma call de longo prazo, seja como aposta direcional, seja como substituto da compra da ação. Os mesmos princípios valem para puts de longo prazo usadas como proteção.

Saiba mais sobre a compra de calls.

Outros nomes

Opções de longo prazo, opções longas de vencimento distante, “leaps”.

Pressuposto direcional

Altista (no uso clássico, com calls compradas). Quem compra uma call LEAPS acredita que o ativo vai subir ao longo de um horizonte de meses ou anos — é uma tese de investimento, não um trade de curto prazo. Com puts de longo prazo, o pressuposto se inverte: protege-se contra (ou aposta-se em) uma queda prolongada.

Ambiente de volatilidade implícita ideal

Baixo. Como a posição é compradora de prêmio, o ideal é montar quando a volatilidade implícita está baixa: o valor extrínseco embutido fica menor e uma eventual alta da volatilidade depois da compra valoriza a posição. O ponto de atenção é que, em prazos longos, a sensibilidade à volatilidade (vega) é grande — comprar uma LEAPS com volatilidade implícita esticada significa pagar caro por um componente que pode desinflar e corroer o prêmio mesmo que o ativo não caia.

Gráfico de lucro/perda

Gráfico de lucro e prejuízo de uma call LEAPS

No vencimento, o gráfico é o mesmo de qualquer call comprada: prejuízo travado no prêmio pago à esquerda do strike e lucro crescente, sem teto, à direita do ponto de equilíbrio. No exemplo do gráfico — call de strike R$ 100 comprada por R$ 12,00, com o ativo em torno de R$ 100 — o prejuízo máximo é de R$ 12,00 por ação e o equilíbrio fica em R$ 112. A diferença da LEAPS não aparece no desenho do vencimento, e sim no caminho até lá: há muito mais tempo para a tese se confirmar antes de o resultado ser cravado.

Exemplo prático

Suponha que a ação ABC negocia a R$ 100 e o investidor tem uma tese de valorização para os próximos 2 anos. Em vez de operar o vencimento do mês, ele compra uma call com vencimento em ~2 anos, strike R$ 100, pagando R$ 12,00 por ação (R$ 1.200 por contrato de 100 ações).

Cenários no vencimento:

Cenário 1 — ABC a R$ 130: a call vale R$ 30,00 (130 − 100). Descontado o prêmio de R$ 12,00, o lucro é de R$ 18,00 por ação (R$ 1.800 por contrato) — e continua crescendo sem limite quanto mais a ação subir.

Cenário 2 — ABC a R$ 112: a call vale exatamente os R$ 12,00 pagos. Resultado zero a zero — é o ponto de equilíbrio.

Cenário 3 — ABC a R$ 100 ou abaixo: a call expira sem valor e o investidor perde o prêmio integral de R$ 12,00 por ação. Não importa se a ação fechar em R$ 99 ou em R$ 60: a perda está travada em R$ 1.200 por contrato.

Repare no contraste com quem comprou a ação: com ABC a R$ 60, o acionista perde R$ 40,00 por ação (R$ 4.000); o comprador da LEAPS perde no máximo os R$ 1.200 do prêmio.

Lucro máximo, prejuízo máximo e ponto de equilíbrio

Lucro máximo

Ilimitado (para a call comprada — a ação pode subir sem teto).

Prejuízo máximo

Prêmio pago

No exemplo: R$ 12,00 por ação (R$ 1.200 por contrato), se a ação fechar no strike de R$ 100 ou abaixo no vencimento.

Ponto de equilíbrio

Strike + prêmio pago

No exemplo: R$ 100 + R$ 12,00 = R$ 112.

Principais usos

1. Substituto da ação com menos capital. É o uso mais popular. Em vez de imobilizar o valor total das ações, compra-se uma call LEAPS dentro do dinheiro (ITM), tipicamente com delta entre 0,70 e 0,80. Uma call assim é composta principalmente de valor intrínseco (pouco valor extrínseco para “queimar”) e acompanha cerca de 70–80% do movimento da ação, exigindo uma fração do capital. O restante do dinheiro fica livre para renda fixa ou outras posições.

2. Proteção de longo prazo com puts. Quem carrega uma carteira de ações pode comprar puts de vencimento distante como um seguro plurianual contra quedas fortes — uma put protetora de longo prazo. Paga-se o prêmio uma vez e a proteção vale por todo o período, em vez de rolar seguros curtos mês a mês.

3. Base para o PMCC. A call LEAPS ITM pode substituir as ações em uma estrutura de venda coberta: compra-se a call longa e vendem-se calls curtas contra ela, mês após mês, para gerar renda. É a chamada poor man’s covered call — uma venda coberta “dos pobres”, com muito menos capital que a versão tradicional.

Comprar a ação vs comprar uma LEAPS

Usando os números do exemplo (ABC a R$ 100; call de 2 anos, strike R$ 100, por R$ 12,00):

 100 ações de ABC1 call LEAPS (strike 100)
Capital necessárioR$ 10.000R$ 1.200
Perda máxima possívelR$ 10.000 (se a ação for a zero)R$ 1.200 (prêmio)
Lucro se ABC for a R$ 130R$ 3.000R$ 1.800
Dividendos e direitos de votoSimNão
Prazo de validadeNenhumVence em ~2 anos
Custo do tempoZeroR$ 12,00 de valor extrínseco a recuperar

A LEAPS oferece alavancagem e risco absoluto menor em troca de três coisas: não recebe dividendos, tem prazo de validade e precisa que a ação suba além do equilíbrio (R$ 112) para dar lucro — o acionista lucra a partir de R$ 100,01. Por isso, quem usa LEAPS como substituto de ação costuma preferir strikes bem dentro do dinheiro (delta 0,70–0,80): quanto mais ITM, menor o valor extrínseco pago e mais o resultado se parece com o da ação.

Riscos

  • Perda total do prêmio: se a tese não se confirmar até o vencimento, a opção pode expirar sem valor e a perda é de 100% do que foi pago. Perder R$ 1.200 dói menos que perder R$ 4.000 na ação, mas em termos percentuais é uma perda total.
  • Sensibilidade à volatilidade implícita (vega): quanto maior o prazo, maior o vega. Uma queda da volatilidade implícita depois da compra pode derrubar o prêmio da LEAPS mesmo com a ação parada — e o efeito é bem mais forte do que em opções curtas.
  • Sensibilidade aos juros (rho): em vencimentos de 1–3 anos, mudanças na taxa de juros têm efeito relevante sobre o preço da opção — algo quase irrelevante em opções de curto prazo.
  • Liquidez menor: mesmo em mercados desenvolvidos, séries longas negociam menos que as curtas, com spreads de compra e venda mais largos. Entrar e sair tem custo maior.
  • Sem dividendos nem voto: o titular da call não recebe proventos nem participa de assembleias enquanto não exercer.

Como gerenciar/fechar

Encerrar antes do vencimento: como qualquer opção, a LEAPS pode ser vendida a qualquer momento para realizar lucro ou cortar a perda — não é preciso carregar até o fim.

Rolar para um vencimento mais distante: quem usa a LEAPS como substituto de ação normalmente não a deixa envelhecer. Quando faltam alguns meses para o vencimento — a zona em que o theta acelera — vende-se a opção atual e compra-se outra com 1–2 anos de prazo, mantendo a exposição sem sofrer a fase de decaimento rápido.

Exercer: se a call estiver dentro do dinheiro e o investidor quiser de fato ficar com as ações, pode exercê-la. Na maioria dos casos, porém, vender a opção é mais eficiente, porque o exercício abandona qualquer valor extrínseco que ainda reste.

Transformar em PMCC: com a call longa em carteira, vender calls curtas contra ela reduz o custo da posição ao longo do tempo — cada prêmio recebido abate o que foi pago pela LEAPS.

Diferenças no Brasil: na B3, praticamente não existe mercado líquido de opções de longo prazo sobre ações. A liquidez se concentra fortemente nos vencimentos mais curtos (o mensal corrente e, nos ativos mais negociados, poucos meses seguintes); séries de vencimento distante, quando chegam a ser listadas, negociam pouquíssimo e com spreads enormes entre compra e venda — o custo de entrar e sair pode consumir boa parte da vantagem teórica da estratégia. Na prática, LEAPS ao estilo americano, com 1 a 3 anos de prazo e book ativo, são um instrumento do mercado dos EUA. Quem quiser aplicá-las precisa considerar operar lá fora, com as diferenças de estrutura e tributação que isso envolve — veja o comparativo entre opções nos EUA e no Brasil e a página sobre liquidez em opções.

Resumo

LEAPS são opções comuns com vencimento longo, de aproximadamente 1 a 3 anos. O prêmio é maior que o das opções curtas porque embute muito mais valor extrínseco, mas esse custo se dilui no tempo: o theta diário é pequeno no início e só acelera perto do vencimento.

No uso clássico — a call comprada —, o prejuízo máximo é o prêmio pago, o lucro é ilimitado e o equilíbrio fica no strike mais o prêmio (no exemplo desta página: strike R$ 100, prêmio R$ 12,00, equilíbrio R$ 112). Os usos principais são substituir a compra da ação com menos capital (calls ITM de delta 0,70–0,80), montar proteção plurianual com puts e servir de base para a poor man’s covered call.

Os riscos característicos vêm do prazo: vega e rho pesam muito mais do que em opções curtas, a liquidez das séries longas é menor e, se a tese falhar, perde-se 100% do prêmio. No Brasil, a falta de liquidez em vencimentos distantes na B3 torna a estratégia, na prática, restrita ao mercado americano.

Perguntas frequentes

O que significa LEAPS?

É a sigla em inglês para Long-term Equity AnticiPation Securities: opções (calls ou puts) com vencimento a cerca de 1 ano ou mais da data atual, chegando a 2 ou 3 anos. Fora o prazo mais longo, funcionam exatamente como as opções comuns.

Por que uma LEAPS custa mais caro que uma opção curta?

Porque tem muito mais tempo até o vencimento e, portanto, muito mais valor extrínseco embutido no prêmio. Em compensação, esse valor se dilui por centenas de dias: o decaimento diário (theta) é bem menor que o de uma opção curta — o comprador paga mais no total, mas “sangra” menos por dia.

Qual delta escolher para usar uma LEAPS como substituto de ação?

A referência usual é uma call dentro do dinheiro com delta entre 0,70 e 0,80. Quanto mais ITM, maior a fatia de valor intrínseco no prêmio, menor o valor extrínseco a recuperar e mais o comportamento da posição se aproxima do da própria ação.

Posso perder todo o valor investido em uma LEAPS?

Sim. Se a ação fechar no strike ou abaixo dele no vencimento (no caso de uma call), a opção expira sem valor e a perda é de 100% do prêmio pago. A vantagem é que essa perda máxima é conhecida e, em reais, costuma ser bem menor do que a exposição de quem comprou as ações.

Existem LEAPS na B3?

Na prática, não. A liquidez das opções sobre ações na B3 está concentrada nos vencimentos curtos, e séries longas, quando listadas, têm negociação quase nula e spreads muito largos. LEAPS com mercado ativo são, hoje, um instrumento do mercado americano — veja as diferenças entre operar opções nos EUA e no Brasil.


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