O que é um poor man’s covered put (PMCP) e como funciona?

Nível: Intermediário

Conteúdo

O que é um poor man’s covered put?

O poor man’s covered put (PMCP) é a versão baixista do poor man’s covered call. Ele replica o resultado de um “covered put” — a combinação de venda de ações a descoberto com a venda de uma put — usando muito menos capital e com risco definido.

Em vez de ficar vendido no papel, o trader compra uma put dentro do dinheiro (ITM) de prazo longo, que se comporta de forma parecida com uma posição vendida em ações, e vende uma put fora do dinheiro (OTM) de prazo curto contra ela, coletando prêmio de forma recorrente.

O resultado é uma trava diagonal de puts montada a débito: a put longa é a “âncora” baixista da posição, e a put curta gera renda enquanto a tese se desenvolve. Se ainda não conhece a compra de puts isolada, vale começar por comprar puts.

Outros nomes

Covered put sintético; covered put “do pobre”; trava diagonal de puts (é um caso particular de trava diagonal).

Pressuposto direcional

Baixista a moderadamente baixista. O trader acredita que a ação vai cair — ou, no mínimo, andar de lado — até o vencimento da put curta. O cenário ideal é uma queda gradual em direção ao strike da put vendida, sem despencar de uma vez.

Ambiente de volatilidade implícita ideal

Baixo. Como a posição é montada a débito e a perna dominante é a put longa comprada, o ideal é montar quando a volatilidade implícita está baixa: a put longa sai mais barata e uma eventual alta da volatilidade depois da montagem (comum quando o mercado cai) tende a valorizar a posição.

Gráfico de lucro/perda

Gráfico aproximado de lucro e prejuízo de um PMCP

O gráfico é uma aproximação: ele mostra o resultado no vencimento da put curta, avaliando a put longa apenas pelo seu valor intrínseco. Como a put longa vence bem depois, ela ainda carrega valor extrínseco nessa data — na prática, o prejuízo na região da direita tende a ser um pouco menor e o resultado exato depende da volatilidade e do tempo restante.

O formato lembra o de um covered put tradicional: lucro limitado se a ação cair (o ganho trava abaixo do strike da put vendida) e perda limitada ao débito pago se a ação subir — enquanto no covered put clássico, com venda de ações a descoberto, a perda na alta seria ilimitada.

Setup

Com a ação sendo negociada em torno de um determinado preço:

  1. Compra uma put ITM (strike acima do preço atual) com vencimento longo — vários meses à frente, como uma LEAPS. Busque um delta alto (em módulo), na faixa de −0,70 a −0,80 ou mais: quanto mais dentro do dinheiro, mais a put se move como uma posição vendida em ações e menos valor extrínseco você paga. Reveja o conceito de moneyness se necessário.
  2. Vende uma put OTM (strike abaixo do preço atual) com vencimento curto — tipicamente em torno de 30 a 45 dias.

Regra de ouro: o débito líquido pago deve ser menor que a largura entre os strikes (strike da put longa − strike da put curta). Se o débito for igual ou maior que a largura, a operação nasce sem potencial de lucro no cenário de queda — justamente o cenário em que ela deveria ganhar.

Exemplo prático

Imagine que a ação ABC está sendo negociada a R$ 100 e o trader tem uma tese baixista para os próximos meses. Ele monta o seguinte PMCP:

PernaOperaçãoStrikeVencimentoPrêmio
Put longa (ITM)CompraR$ 120longo (vários meses)paga R$ 22,00
Put curta (OTM)VendaR$ 95curto (~1 mês)recebe R$ 2,00

Débito líquido pago: R$ 22,00 − R$ 2,00 = R$ 20,00 por ação (R$ 2.000 por conjunto, no lote padrão de 100 ações por contrato). Note que a regra de ouro está satisfeita: o débito de R$ 20,00 é menor que a largura de R$ 25,00 entre os strikes.

Vejamos os cenários aproximados no vencimento da put curta, avaliando a put longa pelo valor intrínseco:

Cenário 1 — ABC cai para R$ 95 ou menos: a put curta entra no dinheiro e, para cada real de queda abaixo de R$ 95, o ganho da put longa é compensado pela perda da put curta. O resultado trava no lucro máximo aproximado: largura de R$ 25,00 − débito de R$ 20,00 = ≈ R$ 5,00 por ação.

Cenário 2 — ABC fica em R$ 100 (ponto de equilíbrio aproximado): a put curta expira sem valor (o trader fica com os R$ 2,00) e a put longa vale R$ 20,00 de intrínseco (120 − 100). Resultado: ≈ zero a zero — e o trader pode vender uma nova put curta para o ciclo seguinte, melhorando o custo da posição.

Cenário 3 — ABC sobe para R$ 120 ou mais: a put curta expira sem valor e a put longa perde todo o valor intrínseco. Se isso se mantiver até o vencimento da put longa, o prejuízo é o débito pago: R$ 20,00 por ação — o prejuízo máximo. Não importa o quanto a ação suba além disso: a perda não aumenta, diferentemente da venda a descoberto de ações.

Lucro máximo, prejuízo máximo e ponto de equilíbrio

Lucro máximo (aproximado)

Largura entre os strikes − débito líquido pago

No exemplo: R$ 25,00 − R$ 20,00 = ≈ R$ 5,00 por ação, se a ação estiver no strike da put vendida (R$ 95) ou abaixo dele no vencimento da put curta. O valor exato pode ser um pouco maior, porque a put longa ainda carrega valor extrínseco nessa data — e a posição pode render mais ao longo do tempo com a venda de novas puts curtas.

Prejuízo máximo

Débito líquido pago

No exemplo: R$ 20,00 por ação, se a ação subir e ficar acima do strike da put longa (R$ 120) até o vencimento final. É um risco definido e conhecido desde a montagem.

Ponto de equilíbrio (aproximado)

Strike da put longa − débito líquido pago

No exemplo: R$ 120 − R$ 20,00 = ≈ R$ 100. Abaixo disso a posição tende ao lucro; acima, ao prejuízo. Como as pernas têm vencimentos diferentes, o número exato varia com o tempo e a volatilidade.

Por que usar em vez de vender ações a descoberto?

O covered put tradicional exige ficar vendido no papel (short de ações) e vender uma put contra essa posição. O PMCP substitui o short de ações pela put longa ITM, com três vantagens:

  • Menos capital: em vez da margem exigida para manter uma venda a descoberto, o desembolso é apenas o débito da trava (R$ 20,00 por ação no exemplo, contra a exposição de R$ 100 do papel).
  • Risco definido: a perda máxima é o débito pago. Na venda a descoberto, a perda com a alta da ação é teoricamente ilimitada.
  • Sem custo de aluguel: não há necessidade de tomar ações emprestadas nem de pagar a taxa do aluguel para manter o short.

Em troca, o trader aceita um lucro limitado no cenário de queda forte e a complexidade de administrar dois vencimentos diferentes.

Como gerenciar/fechar

Rolar a put curta: é o gerenciamento central da estratégia. Perto do vencimento (ou quando a put curta já perdeu boa parte do valor), o trader a recompra e vende outra, com vencimento mais distante e strike ajustado à visão de mercado do momento. Cada rolagem coleta mais prêmio e reduz o custo efetivo da posição.

Se a ação sobe: a put curta expira sem valor e o trader fica com o prêmio, mas a put longa perde valor. Enquanto a tese baixista se mantiver, o caminho é seguir vendendo puts curtas para financiar a espera. Se a alta invalidar a tese, é melhor encerrar tudo e aceitar a perda parcial — ela é limitada por construção, mas não precisa ser levada até o máximo.

Se a ação cai demais (abaixo do strike da put curta): a posição está perto do lucro máximo, e mantê-la passa a oferecer pouco ganho adicional com risco de reversão. As opções usuais são fechar as duas pernas e realizar o lucro, ou rolar a put curta para baixo e para um vencimento mais distante, destravando mais potencial de queda. Evite ficar só com uma das pernas: encerrar apenas a put longa deixaria a put curta descoberta.

Perto do vencimento da put longa: se a tese baixista continua, o trader pode rolar também a put longa para um vencimento mais distante; caso contrário, encerra a estrutura.

Riscos

  • Prejuízo máximo relevante: o débito é alto em relação ao lucro máximo de um único ciclo (R$ 20,00 de risco para ≈ R$ 5,00 de lucro máximo aproximado no exemplo). A conta da estratégia depende de vender várias puts curtas ao longo da vida da put longa — se a ação disparar logo no início, esse plano não se concretiza.
  • Dois vencimentos, mais partes móveis: o resultado no vencimento da put curta depende da volatilidade e do tempo restante da put longa, não apenas do preço. O gráfico e as fórmulas desta página são aproximações.
  • Queda brusca e imediata: parece bom, mas antecipa o teto de lucro do ciclo e pode levar a put curta ao exercício, exigindo gerenciamento ativo.
  • Decaimento da put longa: mesmo sendo ITM, a put longa perde valor extrínseco com o tempo; em mercado que sobe devagar, a posição sangra aos poucos.

Diferenças no Brasil:

  1. No padrão da B3, as puts sobre ações são de exercício europeu: só podem ser exercidas no vencimento. Isso elimina o risco de atribuição antecipada da put curta — que existe nos EUA, onde as puts são americanas — e torna o gerenciamento da perna vendida mais previsível.
  2. A put longa ITM de prazo mais longo é o ponto fraco na prática: a liquidez das opções na B3 se concentra em poucos ativos, nos vencimentos curtos e perto do dinheiro, então encontrar uma put ITM de vencimento distante com spread razoável é difícil. Por outro lado, vender ações a descoberto no Brasil exige alugar os papéis via BTC, o que tem custo relevante — quando há liquidez, a alternativa “sintética” do PMCP fica ainda mais atraente aqui do que lá fora. Veja mais em diferenças entre os mercados de opções dos EUA e do Brasil.

Resumo

O poor man’s covered put é uma trava diagonal de puts montada a débito que replica um covered put — venda de ações a descoberto mais venda de put — com muito menos capital e risco definido: compra-se uma put ITM de delta alto e prazo longo (a âncora baixista) e vende-se contra ela uma put OTM de prazo curto, que gera prêmio recorrente.

A regra essencial de montagem é pagar um débito menor que a largura entre os strikes. O lucro máximo aproximado é a largura menos o débito, o prejuízo máximo é o débito pago e o ponto de equilíbrio aproximado é o strike da put longa menos o débito — todos aproximados, porque as pernas vencem em datas diferentes.

O gerenciamento gira em torno de rolar a put curta a cada ciclo, coletando prêmio e reduzindo o custo da posição, e de encerrar ou ajustar a estrutura quando a ação cai até o strike vendido ou quando a alta invalida a tese baixista.

Perguntas frequentes

O que é um poor man’s covered put?

É a versão baixista do poor man’s covered call: uma trava diagonal em que se compra uma put ITM de prazo longo (substituindo a venda a descoberto de ações) e se vende uma put OTM de prazo curto para gerar renda. A estrutura replica o payoff de um covered put com menos capital e com perda máxima limitada ao débito pago.

Qual é o risco máximo de um PMCP?

O débito líquido pago na montagem. No exemplo desta página, R$ 20,00 por ação — perdidos se a ação subir e ficar acima do strike da put longa (R$ 120) até o vencimento final. Diferente da venda a descoberto de ações, a perda não cresce indefinidamente com a alta.

Por que o gráfico e as fórmulas são “aproximados”?

Porque as duas pernas vencem em datas diferentes. No vencimento da put curta, a put longa ainda tem meses de vida e carrega valor extrínseco, que depende da volatilidade implícita e do tempo restante. O gráfico avalia a put longa apenas pelo intrínseco, o que dá o formato correto, mas não o valor exato.

O que fazer quando a put curta está perto de vencer?

Se a tese baixista continua, o padrão é rolar: recomprar a put curta e vender outra com vencimento mais distante, ajustando o strike à visão de mercado. Cada rolagem coleta mais prêmio e reduz o custo efetivo da posição. Se a ação já caiu até o strike vendido, considere fechar a estrutura inteira e realizar o lucro.

O PMCP funciona no mercado brasileiro?

Com ressalvas. A favor: as puts na B3 são europeias, então não há risco de exercício antecipado da perna vendida, e a alternativa direta (short de ações via aluguel no BTC) é cara. Contra: é difícil encontrar puts ITM de vencimento longo com liquidez na B3, o que na prática restringe a estratégia aos ativos de opções mais negociadas.


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